Revoltados de Acaju

Indiferença (C_mpl_te, #12)

Publicado por: Gob em: 25/02/2010

(ou Alegria Instantânea.mp3)

Yin Yang, por Dinho Fonseca

Por que gosto tanto de Móveis Coloniais de Acaju? Desde que os conheci, através do programa Rumos da Música, duas características me chamaram muito a atenção e até hoje permanecem como principais motivos: a irreverência e a alegria.

Acredito que não seja necessário explicá-las individualmente: estão presentes desde a Revolta do Acaju, cuja existência é indubitável, até cada mensagem positiva que é propagada por suas canções.

Sobre irreverência ainda pretendo falar muito. O curioso que deve ser observado por ora, é que, dentre um repertório repleto de incentivos à busca aos sonhos individuais, à renovação da vida por meio de maior ousadia nas próprias atitudes e ao respeito às vontades e sentimentos de cada um, a música Indiferença, de acordo com minha maleável opinião, consegue se destacar.

Minha reação instantânea ao ouvi-la é ficar confiante e satisfeito, seja qual for minha situação. Um trunfo raro que naturalmente devia ser usado com temperança e cautela, mas a mim se revelou inesgotável no decorrer dos últimos meses.

Tenho convicção de que a música é uma configuração singular entre a voz e a melodia, da mesma forma que é um filme, em relação ao áudio e ao vídeo. O vínculo entre ambas, quando rompido, determina grandes perdas de informação e sentido. Portanto, posso escrever N páginas sobre a instrumentação e mais N sobre o que canta André González, mas nunca representarei nem ao menos uma pequena fração da magia que é alcançada através do conjunto, seus fonogramas e, melhor ainda, suas execuções ao vivo. No entanto, a análise separada é o que me resta!

Instrumental – Viva os metais! Viva o sopro! Viva a animação e a elegância!

Justificar o desencadeamento de agradáveis sensações através da porção instrumental é simples e válido para qualquer canção da banda, fazendo-se desnecessário repetir tal constatação nas postagens seguintes.

Entretanto, cabe ainda ressaltar que os instrumentos que a diferenciam, os de sopro, cumprem este papel não somente pela natureza do som que originam individualmente. A chave se encontra na atuação sincrônica entre cada um deles, entre todos eles e os (imprescindíveis e muito bem executados) instrumentos restantes e, por fim, entre toda a Orquestra Colonial de Acaju e seu admirável vocalista, cujo papel pode ser assemelhado, neste caso, para fins metodológicos, ao de um instrumento. Paralelamente, o desempenho musical é alegoria e fortalecedor dos ideais de coletividade, parceria e amizade que são sempre citados pelos integrantes em entrevistas.

E se é para tocar no assunto da sincronia, o destaque vai para a introdução. Parabenizo, neste caso, não somente a banda, a qual compôs um perfeito e balanceado encaixe entre a contribuição de cada instrumento, mas também aos produtores, que souberam reproduzi-lo: a gravação, a equalização e a masterização proporcionam um som claro de onde se distingui cada pequena nuance de timbre.

Inovador, porém, é o final. A repetição de uma única frase como base para um solo de guitarra justifica duração acima da média de Indiferença, 5:45 minutos, sendo mais curta somente que Aluga-se Vende. Vale lembrar: nem repetições contínuas e tampouco solos de guitarra são comuns na obra da banda. Enquanto ocorre o, portanto, raro momento de deleite com a performance de BC, elementos sonoros são gradativamente adicionados: palmas, assovio e voz. Um clima calmo e intimista é gerado, o qual culmina na retirada total da bateria nos segundos finais. Todo o epílogo é válido tanto no CD (ou arquivo mp3 legalmente baixado) quanto no show, onde a platéia é envolvida em uma antiga, porém divertidíssima, brincadeira de execução vocal fragmentada dos instrumentos.

Letra, Voz e Mensagem – Sem pressa, sem despertador

Você se lembra de que eu estava dizendo algo sobre mensagens de renovação, de incentivo a uma vida mais alegre? Pois é! Logo no início, é o que diz a canção:

Perdi a hora, lamento
Se tudo pode ser melhor
Ainda dá tempo
No tempo certo vou chegar
Sem pressa, sem despertador
A vida é nova
Novo é o lugar
Que a boa hora traz
Nesse incompleto vem e vai

Os três primeiros versos podem dizer muitas coisas. Perder a hora, erro freqüente para todos aqueles que diariamente devem cumprir com obrigações agendadas, pode ser tratado como metonímia de qualquer erro que se possa cometer. Seguido de um pedido de desculpas, é dito que ainda há tempo necessário para que tudo seja melhorado. O campo semântico do tempo, questão claramente primordial para se discutir a vida urbana, agitada e contínua, se completa com a subsequente negação do precoce por meio da adoção da calma e do estilo de vida “deixe-que-aconteça”.

“Sem pressa, sem despertador” – como eu gosto dessa frase! Novamente em forma de metonímia: o despertador representa todos os males desencadeados por tal agito contemporâneo. É, naturalmente, inimigo comum do sono, do descanso e, por consequência, do sonho e da fantasia.

Imperceptivelmente à primeira vista, a questão possivelmente explorada se relaciona diretamente com uma das principais abordagens tropicalistas, presentes, por exemplo, em Alegria, Alegria, de Caetano Veloso (O sol nas bancas de revista / Me enche de alegria e preguiça / Quem lê tanta notícia?), e Baby, também de Caetano, imortalizado por Gal Costa (Baby, baby, há quanto tempo / (…) Você precisa, você precisa). Na primeira, o papel que atribuído ao despertador é desempenhado pelos jornais e revistas, enquanto na segunda, o próprio despertador gera a idéia de compromisso, a qual se completa com a necessidade imposta.

O toque característico e diferenciador da banda, esperançoso, focado na evolução pessoal, é expresso na construção paralelística que é baseada na aplicação das palavras “bom” e “novo”. O uso invertido e indistinto de ambas enfatiza o agrado presente na novidade, tal como a inovação existente em cada bom momento. Também contradiz o conservadorismo tradicionalesco manifestado na expressão “bom e velho”.

Porém, a maior discussão que emerge a partir da canção é introduzida pelo uso da expressão “vem e vai”. Formada por verbos antitéticos que apresentam similaridade fonética e gráfica, não somente retomam as constantes mudanças às quais a sociedade moderna se submete, mas introduz, em efeito desencadeado pela forma, a temática do refrão:

Se o começo é o fim
Não faz mais diferença
Se tudo está por um triz
Não faz mais diferença
Se isso é bom ou ruim
Não faz mais diferença
Nem sempre alegre e feliz
Mas faz, faz diferença

Que temática é essa? A indiferença, como sugere o título! Norval Baitello Junior, em O animal que parou os relógios, trata de algo similar em determinado momento. Segundo ele, baseado no estudo de semiólogos Russos (o interesse de André González por Roland Barthes denuncia a grande quantidade de intervenções semiológicas), há uma tradicional tendência do pensamento humano em gerar classificações a partir de oposições polarizadoras. Mais ou menos como observa Raul Seixas, ludicamente, na canção “Os Números”:

-Dois
E no dois o homem luta entre coisas diferente,
Bem e mal, amor e guerra, preto e branco, bicho e gente
Rico e pobre, claro e escuro, noite e dia, corpo e mente.

No entanto, oposições tão extremistas acabam por se assemelhar. É como expressa a música de Caetano Veloso e de Gilberto Gil, “Haiti”, em seu refrão aparentemente contraditório (O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui), conforme cita Baitello Junior. É pelo mesmo motivo, também, que “agregar” e “segregar” possuem a mesma raiz, “gregis”, que significa rebanho; ou que são tão delicadas as tensões entre amor e ódio, “tapas e beijos”.

Portanto, o que querem dizer os integrantes do Móveis? Que essa mania de tornar o abstrato exato através de palavras, classificações edificadas sob estereótipos, francamente, não faz diferença. Ser bom, ruim, começo ou fim, estar ou não por um triz… Tanto faz! É indiferente! Foda-se como uma situação pode ser nomeada!

O que faz diferença é não estar sempre alegre e feliz. O que faz diferença é o que verdadeiramente tem valor, o que realmente importa. E como canta Hélio Flanders, da banda Vanguart, em “Para Abrir Os Olhos”, “o que importa é o que te faz abrir os olhos de manhã”. Oswald de Andrade pode nos ajudar a simplificar toda essa idéia poeticamente em um curto verso: “a alegria é a prova dos nove”.

Não vá. Me dê mais um tempo
Deixei pro fim o que é melhor
Se for, eu entendo
Só vim aqui para agradecer
O que a gente dividiu
A vida é boa
Bom é o lugar
Que a nova hora traz
Nesse incompleto vem e vai

É nesse ponto onde compreendemos que, apesar de todas as questões sociais, urbanas e contemporâneas que podem ser extraídas por via da presença simbólica do despertador, o impasse que desencadeia o ato de expressão que desempenha eu lírico é de natureza pessoal. Ou seja, mais que uma relação entre um ser humano e seus compromissos, o que está sendo discutido é um vínculo entre dois seres humanos. Há, portanto, uma redução de perspectiva: do questionamento das culturas e tradições a um restrito relacionamento interpessoal. Assim também indica o uso da linguagem dialógica, falada, manifestado, por sua vez, através dos verbos no imperativo.

Este relacionamento, no entanto, é parcialmente enigmático. É possível inferir que está em seu final e que, possivelmente, é de natureza amorosa. Apesar dos pedidos insistentes no início das estrofes que precedem e sucedem o refrão, não há, surpreendentemente, arrependimentos aparentes por parte do enunciador. A revolta é substituída pelo agradecimento pelas experiências compartilhadas. Pausa para aplauso! Nada daquela dor de corno, ou sofrimento sensacionalista, generalizado e que qualquer um pode sentir, comumente dissipado como caminho à aclamação popular.

Do que é ruim eu me esqueço
O bom eu quero mais
Na tristeza eu quero avesso
Agora quero paz
Saiba que todo fim
É um recomeço
Pra nossa vida quero amor
O resto eu desconheço

“Esqueço”, “avesso”, “recomeço” e“desconheço”. “Mais” e “paz”.  Fim.

Estruturados em versos do modo acima exposto, corresponde, aproximadamente à organização de rimas em A-B-A-B-C-A-D-A. Mas… peraí! Além de rimar, essa parte é cantada de forma rápida… Venhamos e convenhamos, este cantar é quase um falar… Epa! Temos uma riminha! A única em toda a obra da banda!

E é uma das melhores que eu já ouvi. Totalmente para cima, enxergando em cada fim um recomeço, em cada limão uma limonada, focando-se totalmente na incessante busca pela vivência do amor… É a parte desta música que mais aprecio, que canto e meus males espanto.

Mas devo confessar que não consigo deixar de me lembrar de Charlie Brown Jr. Não, isto certamente não é uma ofensa! Passei toda a minha adolescência ouvindo CBJR, tenho 3 álbuns originais e considero o Acústico MTV da banda um dos melhores de toda a série nacional. Porém, também devo reconhecer que suas letras e mensagens acabaram por se tornar invariavelmente similares e previsíveis, o que, sem mais delongas, o desloca a um nível extremamente inferior à imprevisibilidade e complexidade do Móveis (segundo meus próprios critérios, para deixar bem claro).

O que importa é que, como dizia, eu realmente gosto desta riminha. Na verdade, admiro muitas delas, toda a espécie. Decorá-las sempre foi uma gratificante atividade e encontrá-las nos finais de canções, um saudável prazer (vide alguns poucos e superficiais exemplos: “Te levar”, por CBJR; “Múmias”, por Renato Russo e Biquini Cavadão; “Outro Lugar”, por Detonautas; e “Minha Voz”, por Alma D’jem).

Às vezes são curtas e nem ao menos rimam de verdade. São como falas francas que constituem um recurso expressivo usualmente adotado por compositores, sobretudo no ambiente do pop/rock nacional. A quebra de ritmo e a opção por uma enunciação mais direta e objetiva é jornalística e intimista: ou nos conta a verdade absoluta ou relata experiências. E mesmo que eu as trate como lugar-comum da música popular, não consigo enxergar problemas em utilizá-las. Principalmente, quando se trata de um uso tão moderado.

Sem mais, imploro que comentem. É isso ae! Eu vim de Santos, sou Charlie Brown!

Autocrítica do dia

Possivelmente, fui um fã meio chato, cheio de elogios e comparações excessivamente adjetivadas e metaforizadas. Como nenhum exagero formal diz respeito a um exagero conceitual (ou seja, como disse o que realmente penso, pecando apenas com a seleção das palavras), deixei assim mesmo. Pretendo melhorar…

Auditório Ibirapuera, 22/01/2010

O impulso artístico e criador que deu a luz à idéia de se ter um blog é resultante de um show da banda Móveis Coloniais de Acaju ao qual assisti do qual participei. E, justamente, portanto, sobre ela planejei dedicar minhas singelas escrituras.

Mas, como habitualmente acontece com tudo que costumo planejar, logo após me empolgar com a proposta e começar a agir, adiei. É regra: os primeiros obstáculos surgem, minha reação é procrastinar. Na verdade, escrevo esta introdução sem saber quando (ou se) ela vai ter uma continuidade, inclusive para que possa ser convenientemente chamada introdução.

Só sei que ouço Móveis e não me contenho: preciso escrever. Maior responsa é exprimir as próprias interpretações. Mas um dos N motivos pelos quais eu gosto da banda é a complexidade de suas letras. Proponho um canal através do qual todo fã possa buscar coletivamente a explicação dessa complexidade, ou o que faz tanto sentido naquilo que é cantado ao ponto de desencadear sentimentos e sensações tão intensas. Então vamos deixar combinado: eu somente dou o pontapé inicial, mas jogaremos o jogo juntos, ok?

Nesse instante, me deparo com a difícil escolha da primeira canção a explorar, aquela que pode definir se eu desisto da vida de blogueiro e vou, passivamente, assistir a alguns episódios de Friends ou se nela ingresso definitivamente.

Meu problema, confesso, é a insegurança. Fico muito pensando em me explicar e as coisas não andam. Mas chega disso! Toda essa novelinha pessoal, por exemplo, não interessa a ninguém, não faz sentido algum contá-la. Por outro lado, faz diferença se eu a contei ou não?

Como assim?

Um pseudo-fã-blog nada oficial da banda Móveis Coloniais de Acaju dedicado a discutir o significado de suas canções.

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